quinta-feira, 31 de março de 2011

Petróleo, mentiras e árabes

Hoje, dia das mentiras, deixo aqui registada uma que ficou na memória da minha geração.

Em fevereiro de 1971, quando o mundo, e Portugal dentro dele, passava por grandes perpexidades no tocante ao abastecimento oretolífero, um rumor chegou, uma tarde, a setores políticos e jornalísticos de Lisboa: um grupo de importantes "sheiks" árabes iria passar pela capital portuguesa, tendo marcado um jantar no "Tavares", o mais emblemático restaurante da cidade. A notícia surgira, através de alguém da TAP, pelo que um membro do governo ter-se-á deslocado apressadamente de Coimbra para tentar um contacto com os visitantes, os quais talvez pudessem ser a chave para a flexibilização das condições altamente restritivas em que Portugal então vivia, no tocante a fornecimentos de petróleo.

No diário "O Século", que havia conseguido, "de muito boa fonte", a informação sobre o repasto árabe nos dourados do "Tavares", o chefe de redação, José Mensurado, decidiu enviar o repórter Roby Amorim para o local, tendo este testemunhado a chegada do Rolls Royce, com batedores, que transportava os nababescos visitantes. Estes, chefiados pelo "príncipe Iben Seddak", relutantes à intrusão jornalística, revelaram-se pouco prolixos, deixando apenas cair, através de um tradutor, escassas e pouco esclarecedoras declarações, as quais, no entanto, serviram de farto objeto, no dia seguinte, a magníficos título, notícia e fotografia, nessa "caixa" em exclusivo obtida pelo jornal da família Pereira da Rosa (de que conservo um precioso exemplar). A cinco colunas "O Século" garantia: "Negoceia-se em Teerão. Mas encontram-se árabes em Lisboa e o tema também é petróleo", referindo-se às negociações em curso sobre o chamado "Acordo de Teerão" no âmbito da OPEC.

Para o que aqui interessa: era tudo falso! Os tais "árabes", vestidos a rigor no "Paiva", eram figuras da vida social lisboeta (o chefe cozinheiro Michel da Costa, Manecas Mocelek, Nicha Cabral, Jorge Correia de Campos e outros), "O Século" foi objeto de um gozo geral (só minorado pela intervenção da censura) e o contacto credibilizador na TAP terá mesmo sofrido represálias, tal como o próprio José Mensurado. No "República", Artur Portela Filho escreveu então, na sua coluna "A Funda", uma crónica deliciosa, intitulada "Os árabes da rua do Século". Pelos cafés de Lisboa, a história (que conto de memória) deu para rir, por semanas.

O estertor da ditadura já era abalado por estas pequenas mentiras. Meses depois, surgiriam por Lisboa boatos de uma revolta militar. O regime não acreditou. Ainda bem. Era verdade.   

Em tempo: leia aqui toda esta história de forma bem mais completa.

16 comentários:

Anónimo disse...

Só nos falta ...
O petróleo e os árabes...

Pensando bem!!!
Talvez mesmo só o petróleo...
Isabel Seixas

Anónimo disse...

É verdade que o comentário das duas propostas de verdade é mentira claro...
Isabel seixas

Teresa disse...

A história é célebre, cresci com ela (tinha 12 anos na altura) e viria a conhecer mais tarde o Manecas, no Stone's, no Bananas e no Ad Lib.

Mas a história não é original. Muitos anos antes, Virginia Woolf e a sua tertúlia criaram esta situação, acho que há inclusivamente fotografias do grupo. É uma questão de pesquisar, aposto que encontro.

Helena Oneto disse...

Lembro-me muito bem dessa história, do que rimos da "lata" dos três "árabes" e do prazer que tivemos quando se soube que o "canastrão" do Mensurado tinha passado um mal bocado:)!

Anónimo disse...

Um dos meus tios, já falecido, era militante do PCP e acérrimo defensor das nacionalizações no período pós 25 de Abril.

No dia 1 de Abril de 1975, o meu pai decidiu pregar uma "mentirinha" e disse-lhe que sabia de fonte credível que uma das suas casas ia ser ocupada para o PCP estabelecer a sua sede naquela região.

Para além de entrar em pânico, praguejou contra o que considerava uma falta de consideração do partido.

A brincadeira terminou quando disse que ia ligar para o camarada ???, pessoa muito influente no partido nessa época, para travar tamanho roubo.

Desde aí, nunca mais teve coragem de tentar "evangelizar" a família e amigos.

"Bem prega frei Tomás, faz o que ele diz, não faças o que ele faz."

Isabel BP

R.Marques disse...

Por associação de ideias recordo o saudoso Solnado e o petróleo no Beato.

Anónimo disse...

Posso só dar os parabéns à tia Aldinha ...É minha Madrinha...
E faz anos...

E é Verdade
E é uma nossa senhora da Aparecida
Está sempre presente
Nas tormentas
Nas bonanças

Com um sorriso do tamanho do universo
Com um cházinho servido nas toalhas de chá que bordou meticulosamente no treino de sindromes de privação hormonal nos tempos em que se predizia o passado o futuro e o presente de forma sempre igual e correspondia à verdade...

A tia Aldinha é daquelas Mulheres que só nos transformam em boas raparigas, que personifica um eterno liceu e um museu recheado de amores fraternais familiares pode ser mesmo o museu de Queluz
e deveria ser promovida a património da humanidade, de qualquer forma, embora saiba de antemão, que não, eu mereço, porque amo...

Basicamente porque sei que o nosso petróleo são as Tia Aldinhas...

Faz-nos cá uma falta o outro, só se for para aumentar o risco de doenças cardiovasculares por obesidade mórbida mental.

Isabel Seixas

Teresa disse...

A partida original, com fotografia e tudo:
http://en.wikipedia.org/wiki/Dreadnought_hoax

Julia Macias-Valet disse...

Faz hoje 19 anos que cheguei a França.
Quando anunciei aos meus pais que tinha sido escolhida entre 4 candidatos de grandes escolas francesas para um lugar de direcçao de uma grande empresa francesa e que abalaria no dia 1 de abril...eles também nao acreditaram. Mas era/foi verdade ! : )

Artur Portela disse...

Francisco Seixas da Costa:

Um abraço pela sua memória da Funda d`Os Árabes da Rua do Século".

Artur Portela

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Artur Portela: creio que nunca nos cruzámos, mas aproveito para agradecer-lhe por esta via as horas de boa disposição que as suas "Funda" (no República e no Jornal do Fundão) e a(s) Feiras das Vaidades me proporcionaram, entre o muito que conheço de quanto escreveu. Ainda há pouco meses, aqui em Paris, por ocasião da morte de Alfredo Margarido, e a propósito das aventuras do "nouveau roman" em Portugal, tive ocasião de citar o seu "Rama Verdadeiramente", obra que conheci através do Carlos Eurico da Costa, pessoa com quem ambos trabalhámos na Ciesa-NCK, embora em tempos diferentes. Um cordial abraço.

Artur Portela disse...

Caro Francisco Seixas da Costa:

Muito sensibilizado.
Se quiser fazer o favor de me deixar endereço conveniente, terei o gosto de lhe fazer chegar um volume, com duas ou três coisas.

arturjardimportela@hotmail.com

PS - Aproveito para saudar, em redor, os seus colegas/correspondentes deste seu/vosso inteligente e divertido blog.

Anónimo disse...

Conheci bem esta paródia,só que não foi em 1973 mas em 70 ou pricípio de 71.Abraços

Gonçalo Pereira disse...

Prezado Francisco Seixas da Costa,

Agradeço as referências que aqui deixou e que me permitiram encontrar nos arquivos a reportagem em causa, bem como os seus ecos.

Tomei a liberdade de continuar a narrativa no ponto em que a deixou:

http://ecosferaportuguesa.blogspot.pt/2013/01/quando-o-seculo-noticiou-o-petroleo-de.html

Cordialmente,

Gonçalo Pereira
GP

Anónimo disse...

Anónimo disse...
A história passa-se exactamente no Carnaval de 1971, fui eu que ajudei no final da tarde os "actores" a vestirem as roupas do Anahory ou Paiva? Os nomes são: Manecas, Nicha Cabral, Michel, Frederico Abecassis, Manuel Correia e Jorge Correia de Campos; O Rolls Royce era do Jorge C. de Campos e o chauffeur era o Orlando vestido a rigor com a farda que usava à noite quando arrumava os carros no Stones.
O "Corso Carnavalesco saiu do Stones ás 19h para o Tavares, lá esperava-os o Eduardo Rocha vestido de Smoking que fazia o papel de intérprete, a ideia inicial era uma brincadeira de Carnaval, mas quando viram que a história ganhava credibilidade mantiveram o embuste.
O Jorge C. de Campos era o Príncipe e o Nicha fazia de provador da comida do Príncipe, que podia estar envenenada, recusou dois pratos, já todos tinham comido e o Jorge cheio de fome, charutos Davidoff o Nicha partiu 3, estavam muito secos para o Príncipe.
Esta história teve um final feliz porque o Marcelo Caetano era padrinho de casamento do Jorge C. de Campos; Três "actores" já partiram: o Manecas o Manuel Correia e o Frederico Abecassis, eu tinha 19 anos quando entrei nesta peça, estava a trabalhar no Stones desde o início 1970, grande casa não esquecendo o Papagaio no Algarve no de Verão de 72,73,74.
Considero um privilégio ter trabalhado no Stones durante 10 anos, só quem viveu esses tempos sabe do que estou a falar.
Fernando Martins

Helder Tomé disse...

Lembro-me bem desta façanha extraordinária