domingo, 1 de maio de 2011

Condecorações


As condecorações têm uma importância muito diferenciada em cada país. Em França, os cidadãos têm por regra usar, no seu dia-a-dia, as condecorações de que são detentores. Se se olhar para a botoeira dos casacos dos homens, e também de certos vestuários femininos, notar-se-ão os pequenos símbolos redondos (com ou sem uma pequena tira por detrás, que revelam graus mais elevado) ou uma espécie de ligeiras bordaduras alongadas da mesma cor. 

Regularmente, a imprensa francesa dá nota pública da atribuição desses títulos de nobreza republicana, os quais, por regra, devem significar vidas ou atos feitos ao serviço da comunidade. Às vezes, algumas escolhas são um tanto mais polémicas, mas a relevância do cidadão é aqui claramente acrescescida com a exibição dessas distinções. Como me dizia um meu antecessor, para um francês, sair à rua sem a condecoração que lhe foi atribuída, é quase como "sair nu".

A "Légion d'Honneur", de cor vermelha, é a mais prestigiada das condecorações francesas, mas a "Ordre du Mérite" é também aqui muito importante, em especial nos seus graus mais elevados. Como ironia - mas com verdade -, costuma-se dizer que uma boa condecoração francesa "arranja mesas" em restaurantes cheios. Posso testemunhar que assim é, de facto. A consideração automática que suscita em muito locais é evidente.

Os diplomatas, um pouco por todo o mundo, têm, por vezes, acesso mais fácil a condecorações estrangeiras. Seja porque estiveram no serviço do Protocolo, seja porque as obtiveram pelos "pacotes" de trocas de condecorações que se trocam em visitas de Estado, acontece-nos, com frequência, sermos detentores, sem qualquer esforço especial, de insígnias que um nacional do país que as atribui passa uma vida a ambicionar. No meu caso pessoal, tenho algumas condecorações estrangeiras por motivos exclusivamente "ex officio", nalguns casos sem que nenhuma razão especial o justificasse. Digo-o com total sinceridade, embora não deixe de ficar grato pelo gesto da sua atribuição.

Com os portugueses, passa-se, em França, uma circunstância curiosa. A "Légion d'honneur" francesa é, na sua insígnia para uso quotidiano, exatamente idêntica à Ordem de Cristo portuguesa, que é a mais prestigiosa condecoração que, entre nós, um civil pode ambicionar obter. Existe, por isso, uma lei francesa, do século XIX, que proíbe o uso público, em França, da nossa Ordem de Cristo (e de uma condecoração idêntica da Santa Sé), para evitar confusões com a sua mais prestigiosa ordem.
Muitos diplomatas têm histórias ligadas a condecorações, tema que faz parte de abundante anedotário da nossa carreira. Um dia, na Noruega, como encarregado de negócios na ausência do meu embaixador, tive o ensejo de ser apresentado, com o meu colega espanhol, ao rei Olavo V, durante uma cerimónia de gala no palácio real. O soberano, que era um homem de uma grande bonomia e simpatia, quis colocar-nos à vontade e, numa inesperada cumplicidade, disse-nos: "Não olhem agora, mas vão notar que, atrás de vocês, está um embaixador - que não sei de que país é - cheio de condecorações, dependuradas na sua casaca. Devem imaginar que eu, como rei, já recebi imensas. Tenho a sensação de que, se decidisse usá-las todas no mesmo dia, caía ao chão..."

Conta-se que Salazar dizia que "as condecorações não se pedem, não se recusam e não se usam"*. Contudo, há, pelo menos, uma fotografia em que ele é visto usar condecorações. Uma única certeza tenho: não era a Ordem da Liberdade, que nem a título póstumo alguma vez terá. Espero bem!

* Pessoa amiga chamou a minha atenção para o facto dessa citação ser atribuída a François Mauriac, a propósito da "Légion d'Honneur". Terá Salazar citado o escritor? Ou o contrário?

11 comentários:

Anónimo disse...

Se um dia o Dr. Mário Soares póe as medalhas e os doutoramentos honoris causa até faz o pino.

Helena Sacadura Cabral disse...

Ai Senhor Embaixador também lhe digo que houve uma época em Portugal em que "ser condecorado" se tornou uma mera banalidade.
E não foi há muito tempo...

Anónimo disse...

convenhamos que embelezam ?... os trajes...
Dão nas ...Vistas.

Há quem "As" tatue...
Isabel seixas

Pessoalmente só tenho uma a da família que ostento em cada expressão, com orgulho nem só...Por inerência.

Anónimo disse...

A incoerência do Salazar, faz lembrar a do Almeida Garrett – “Foge, cão, que te fazem barão. Para onde? Se me fazem visconde” – embora, também não tenha recusado receber o título de visconde.

Nos últimos anos, tem-se assistido a uma banalização das condecorações que acaba por ser uma falta de consideração por todos aqueles que são realmente dignos de receber tais insígnias.

Há uns meses, escrevi um simples e-mail a um ilustre desconhecido e comecei com “Caro Senhor Dr…” e, como diriam os “Rio Grande” na sua célebre música, “na volta do correio” assinava Comendador.

A juntar-se a esta clientela das condecorações em território nacional, temos algumas “pseudo-personalidades” das Comunidades Portuguesas que já fazem parte do rol dos ditos comendadores sem que lhes seja conhecida obra feita em prol do país e dos portugueses... a não ser em proveito próprio.

Gostei muito da fotografia deste post com um toque muito principesco, ainda, estou sob influência do casamento real.

Isabel BP

O Eleitorado Morre Mas Não Se Rende disse...

Interpretação do discurso do messias de santa comba:
dizia que as condecorações não se deviam pedir, mas pedem-se não se recusam mas há quem o faça (obviamente cada vez menos)e não se usam mas em algumas situações dão um certo brilho provinciano


e quem não gosta dos atavios da procissão?
.

Uma única certeza tenho: não era a Ordem da Liberdade, que nem a título póstumo alguma vez terá. Espero bem....a ordem não se coaduna com a liberdade

o caos é a absoluta liberdade

é por isso que as revoluções são momentos libertadores

pode-se fazer de tudo e sem consequências imediatas

O Eleitorado Morre Mas Não Se Rende disse...

só em Évora esse bastião dos doutoramentos juntamente com coimbra as legiões de honoris causa

se em campo aberto defrontassem as da UBI UTAD e mais meia dúzia

Lisboa excluída

seria uma carnage

Anónimo disse...

Bem merecia ,meu caro Embaixa-dor.Otelo S.Carvalho disse-o ha dias numa entrevista publica.A partir de amanha,estaremos sem liberdade economica,ate porque o ouro que assegurava esta liberdade foi desbaratado pelos seus camara-das do 25.

Jose Martins disse...

Senhor Embaixador,
Eu conheci o porteiro do hotel Vitória Falls, nas ex-Rodésia, um negro (o sentido não é pejorativo) grandalhão, gordo e sósia do Idi Amim, cuja farda estava cheia de medalhas que os clientes estrangeiros lhe ofereciam.
.
Mais tarde ao passar numa rua de Croydon (Reino Unido) dou com uma loja de coisas usadas centenas de medalhas, com fita, à venda.
.
Bem os condecorados em vez de as colocar no "prego" por que metal não dava tuta e meia, foram vendê-las à casa de trastes.
.
Vaidades e caganças de vida enquanto por cá se vive.
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Saudações de Banguecoque
José Martins

Julia Macias-Valet disse...

Uma das minhas filhas perguntava-me enquanto viamos imagens do casamento de Kate & William : "Porque é que aquele senhor (o Duque de Edimburgo) tem tantas medalhas ?"
Nao lhe soube responder : (
Alguém sabe a razao ?

Julia Macias-Valet disse...

Quanto à Légion d'Honneur o mais triste é a pedinchice e as recolhas de assinaturas a que alguns se dao para a terem.

Depois de ter conhecido pessoas que a obtiveram...a condecoraçao perdeu para mim, muito do seu valor... : (

Helena Sacadura Cabral disse...

O que me ri com o comentário de José Martins...