terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Os meus livros

Há uns anos, dei por mim a olhar para umas estantes onde tinha grande parte dos meus livros e a interrogar-me sobre o que fazer-lhes. Nunca fui um bibliófilo no sentido clássico. Não tenho raridades bibliográficas, embora possa ser proprietário de alguns livros que, não sendo caros, é difícil encontrar, mesmo nos alfarrabistas. Não tenho uma "biblioteca" no sentido tradicional, organizada por secções. Fui comprando livros ao sabor dos tempos, às vezes ao ritmo de algumas modas intelectuais, outras por via de escolhas políticas, muitas mais porque a atualização profissional ou os gostos do momento me levaram a adquiri-los. Comprei livros que não li de todo, alguns completamente desnecessários, outros que só folheei, outros ainda porque achava que um dia ia ter tempo para os ler e não tive, para além dos que eram tão baratos tão baratos, numa feira do livro ou num saldo, que achei pena não ficar com eles. Com escassas exceções, sei onde e por que razão comprei cada livro. Gosto muito de oferecer livros, mas nunca dei um único livro dos meus. A minha biblioteca é hoje, assim, uma mescla imensa, onde se pode encontrar um pouco de tudo, desde ficção avulsa a muitas biografias e memórias, bastante história contemporânea, uma imensidão de dicionários, enciclopédias e obras de referência, muita coisa sobre a Europa e relações internacionais, montanhas de "current issues" e o que restou de tempos "esquerdalhos" - Marx & companhia. Mas há também publicações periódicas encadernadas, folhetos vários, literatura clandestina, etc. O único setor com alguma coerência e bastante completo são centenas de volumes relativos às lutas contra o Estado Novo e à política portuguesa contemporânea (onde me deve faltar muito pouco do essencial).

Quando saí para o meu primeiro posto diplomático, no final dos anos 70, levei comigo quase todos os meus livros de então, umas largas centenas. (Curiosamente, eram, de forma esmagadora, em língua portuguesa e francesa; o inglês viria mais tarde). A partir daí, fui circulando pelo mundo acompanhado de apenas alguns desses livros, mandando os restantes para Portugal, espalhados entre a casa em Lisboa e a dos meus pais, em Vila Real. E comprando outros, claro. Passei, a partir de então e para sempre, a ter livros espalhados por vários locais. Às vezes, chegou a acontecer-me comprar o mesmo livro duas vezes. Depois dos últimos doze anos passados ininterruptamente no estrangeiro, a situação tornou-se fisicamente insustentável. Assim, no início deste ano, cheguei a Portugal com mais alguns milhares de livros "às costas". Nas estantes que tinha por cá já não cabia mais nenhum! Havia deixado em Paris quase quatro centenas, mas alguns milhares que me acompanhavam (e que cresceram dia a dia, em Paris) tiveram de ir diretamente para Vila Real. Para estantes? Não, em muitas dezenas de caixotes que jazem na maior divisão de uma casa vazia. Se somar os que tenho por Lisboa, juntos com algumas centenas que o meu pai me deixou, estaremos a falar de cerca de dez mil livros.

Que fazer? Decidi começar a doar esse espólio bibliográfico à moderna Biblioteca Municipal de Vila Real. Não foi uma decisão fácil de tomar. Tive a sorte de encontrar na pessoa do diretor da biblioteca, Vitor Nogueira, uma figura pouco comum na cultura de Vila Real, o interlocutor que me sossegou. Com ele combinei o "modus faciendi" desta operação progressiva. A biblioteca apõe em cada livro o carimbo que a imagem mostra, é feita uma recensão de cada volume, que segue depois para a secção respetiva. Por via informática, posso ir seguindo (tal como qualquer outro utente) o curso deste trabalho de integração dos livros na Biblioteca, inseridos num "fundo" próprio. E vou ficando com a certeza de que há quem trata os meus livros com o cuidado que (eu acho que) eles merecem. Tenho vindo a enviar para a Biblioteca tudo aquilo que entendo já não me fazer falta, o que naturalmente significa que as coisas que considero mais interessantes vão manter-se, por ora, em minha posse. Estão já por lá cerca de oito centenas de livros. Outros se seguirão no início de janeiro. Esta é uma "operação" necessariamente lenta, porque acarreta o desligar psicológico de objetos com que fomos habituados a viver. E isso, como se sabe, está longe de ser uma coisa fácil. Só ficaria preocupado, e as pessoas próximas de mim o deveriam ficar também, se um dia eu decidisse, de repente, dar todos os meus livros. Isso significaria que havia desistido de uma parte da vida. Porque os livros foram e são uma das partes mais importantes dessa vida.

Bom, e agora só espero que ninguém me ofereça livros logo à noite... 

16 comentários:

Anónimo disse...

Isto de não "ter terra" é uma infelicidade! Apesar de uma ascendência de dois séculos de gente de Viana do Castelo, já lá não há casa de família nem parentes. E em Lisboa o espaço para os livros é cada vez menor, apesar da tentativa de me "livrar" de uns e da auto-promessa de contenção na compra de outros, coisa tão difícil de conseguir porque cada vez há mais amigos a publicar mais livros. Quase lamento não ser como Jesus Cristo que, como lembrou Fernando Pessoa, além de não saber nada de finanças, não tinha biblioteca!

patricio branco disse...

os livros multiplicam-se, são uma adição, boa, claro.
há sempre espaço para por mais livros, mesmo fora das estantes.
bom trabalho e decisão, oferecer os livros à biblioteca depois de assegurar que são integrados e cuidados,
enviar para caixas para uma instituição biblioteca e não controlar a sua classificação, é perder uma parte deles.
todos temos a nossa biblioteca de babel, pequenina, média, grande ou imensa...

António Martinho disse...

Uma ótima ideia. Quem tem uma biblioteca pessoal, rica nos temas e diversificada, ao colocá-la ao serviço dos "curiosos" de certos assuntos está a prestar um bom serviço à sua terra e aos conterrâneos.
Eu ofereci os Diários da Assembleia Constituinte, mas não sei por onde andarão... Foi com outro diretor. Um dias falarei com atual diretor.
A. Martinho

Anónimo disse...

Há mais de 10 anos visitei, como era meu hábito, um dos alfarrabistas de Lisboa. O dono segredou-me que ali tinha uma belíssima biblioteca que tinha adquirido aos herdeiros de uma ilustre figura bem conhecida que, como é obvio, não quero divulgar.
Entre as boas obras que ali estavam à venda, havia um conjunto que me impressionou: As revistas Paris Match, de diversos anos, encadernadas a rigor, em belíssima carneira. Ali estava um pouco do que foi o seu dono...
MT

João Q Cavaleiro disse...

Como sempre, um deleite com a leitura de cada palavra.( o que se compreende porque renho repartido o tempo entre entediante direito e economês que entendia de tão recorrente).

Atento, porque sinto o começo de um percurso que um dia deveria acabar neste superior desapego que tão bem aqui se descreve.
E assim se vai construindo um pé de história. Como homem da Bila, só me resta agradecer.

Como sempre, termina da melhor maneira, com um pedido para logo à nite, que me arrancou um sorriso.

Ainda assim, aposto que alguém o irá prendar com uma boa leitura. Ganharemos todos ...

Um Jeito Manso disse...

Embaixador,

Não, não venho com livros. Venho de mãos a abanar.

Ou melhor, venho apenas com votos de um Bom Natal.

Anónimo disse...

Os livros são uma tentação para alguns, onde me incluo, por isso ao longo da vida adquiri muitos. Mas há um tipo de livros de que me arrependi ter gasto imenso dinheiro: São as enciclopédias, das quais tenho dezenas de quilos. Hoje, para mim, não tem qualquer valor para consulta, já que pela internet temos informações de tudo, bem mais atualizadas e muito mais rápido.

Anónimo disse...

Espero que no futuro não aconteça ...mas talvez sejam só ebooks !

Wikipédia ;

"Disambig grey.svg Nota: Para o filme de François Truffaut, veja Fahrenheit 451 (filme).

Fahrenheit 451 é um romance distópico de ficção científica soft, escrito por Ray Bradbury (1920-2012) e publicado pela primeira vez em 1953. O conceito inicial do livro começou em 1947 com o conto "Bright Phoenix" (que só seria publicado na revista Magazine of Fantasy and Science Fiction em 1963).1 O conto original foi reformulado na novela The Fireman, e publicada na edição de fevereiro de 1951 da revista Galaxy Science Fiction. A novela também teve seus capítulos publicados entre março e maio de 1954 em edições da revista Playboy.2 Escrito nos anos iniciais da Guerra Fria, o livro é uma crítica ao que Bradbury viu como uma crescente e disfuncional sociedade americana.
O romance apresenta um futuro onde todos os livros são proibidos, opiniões próprias são consideradas antissociais e hedonistas, e o pensamento crítico é suprimido. O personagem central, Guy Montag, trabalha como "bombeiro" (o que na história significa "queimador de livro"). O número 451 é a temperatura (em graus Fahrenheit) da queima do papel, equivalente a 233 graus Celsius."

Alexandre

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Acho uma excelente ideia. Vila Real agradece, naturalmente. Sem receio de plágio, vou fazer a mesma coisa com os meus livros que são uns tantos.

E, apesar da crise, da austeridade e da autoridade

Boas Festas

Anónimo disse...

Não sei se o Senhor Embaixador esteve mancomunado com Villepin que, igualmente bibliófilo, também se decidiu desfazer dos seus livros ao chegar à quadra dos sessenta anos. Inquirido sobre o motivo: "Porque sim...".
Em todo o caso Villepin não acabou pendurado no gancho de um talho, contrariamente à promessa que Sarkozy lhe fizera...

opjj disse...

Dr. Seixas da Costa,neste seu ajuste de vida,há uma frase que retive," tudo aquilo que eu entendo não me faz falta". Fez-me lembrar o meu Pai que quando tinha 106a, queria ir para a varanda ver movimento e a natureza (vida).
Percebe onde quero chegar, certamente.
Bom Natal

Fatima MP disse...

Caríssimo Embaixador,

Tantas leituras preciosas o seu blog me proporcionou em 2013! Um prazer lê-lo, pela actualidade dos temas, humor, sensatez e pela frontalidade "pero sen perder la ternura". Gostei muito e, claro, vou continuar leitora. Só "liguei" para dizer obrigada e desejar Feliz Natal e tudo de bom para 2014! E vamos continuar na torcida por um país menos crispado, mais fraterno e mais realizador! Até para o Ano, Embaixador, o prazer foi meu!

Anónimo disse...

Sr. Embaixador: em vésperas de ir para Oslo ocupar o primeiro posto na estranja, fomos os dois para os alfarrabistas do Bairro Alto e num deles comprei os 4 volumes do "Dicionário da História de Portugal", da Iniciativas Editoriais". Nas Escadinhas do Duque comprei as edições originais de antes de "O que diz Molero" por tuta e meia. Vantagens de na altura poucos saberem que o nome estrangeiro era de um bairrroaltino, bem português.

Blogue de Júlio de Magalhães disse...

Como eu o compreendo. Mas ainda não tive a sua coragem.

Graça Vasconcellos disse...

Bom ano, Francisco
O problema dos caixotes que vieram de desfazer três casas também me atormenta.
Que as "coisas" fiquem onde podem ser lidas e apreciadas é o mais importante.
Comecei pelo mais fácil e doei, ao Museu do Teatro, centenas de programas e cartazes de peças a que fui assistindo, em vários lugares, durante seis décadas.
Bibliotecas é mais difícil. Falaram-me das prisões. Vou tentar.
Graça

Anónimo disse...

Senhor embaixador
O seu texto "incomodou-me"; também ando a pensar nos livros que fui juntando desde o dia em que comprei o primeiro (mesmo primeiro), com dinheiro do meu primeiro ordenado; aos 18 anos; "O Drama de João Barois", que já tinha lido...
E ando a pensar na coisa, mais assustado, desde há uns três meses, desde que li o texto "A força do destino", no livro "A liberdade de pátio", do Mário de Carvalho.
Bom ano e boas (e muitas) leituras.
MB