sexta-feira, 30 de junho de 2017

Para memória futura

Hoje, 30 de junho.

O dilema do eucalipto

Passos Coelho sobre o eucalipto: "Até eu que não sou particularmente defensor do eucalipto acho que não faz sentido estar a demonizar o eucalipto, porque nós sabemos que uma grande parte do território não tem eucalipto e que o eucalipto é o que menos arde."
Depois de ler isto, nesta peculiar forma que me lembra um clássico qualquer que me está a escapar, dei comigo a pensar que, fosse eu eucalipto, não gostaria muito deste elogio.

Desculpem lá!

Num tempo em que os atos terroristas já se praticam de faca e de camião, este roubo de material militar parece-me um acontecimento da maior gravidade, que afeta a imagem do país junto dos seus parceiros e aliados. Com todas as letras, isto é um verdadeiro escândalo!

Seria uma patetice, demagógica e sem sentido, pedir a demissão do ministro (só faltava que ele fosse responsável pela guarda de um paiol!), mas é urgentíssimo saber quem permitiu que as coisas chegassem a este estado de bandalheira, porque as consequências potenciais podem ser imensas. E responsabilizar essa ou essas pessoas, pondo-as "com dono", de "armas & bagagens".

Hipóteses de Europa


Não há ainda certezas sobre o rumo futuro da Europa. Mas há alguns sinais e valerá a pena refletir sobre eles.

Em perspetiva, pode hoje dizer-se que a Europa sobreviveu razoavelmente à crise financeira, embora não tenha conseguido estruturar soluções estáveis para os efeitos assimétricos que ela desencadeou no seio dos países do euro. As lideranças europeias não consensualizaram, no terreno político, uma resposta coletiva de matriz solidária, em face de problemas dos parceiros com inultrapassáveis défices estruturais de competitividade. Perante a crise, as opiniões públicas recolheram-se num tropismo egoísta, entrincheiradas com naturalidade nos seus interesses nacionais, com a ausência de uma pedagogia política sobre o interesse comum europeu a ajudar. 

O compromisso possível, para evitar o risco reputacional que a implosão parcial do euro inevitavelmente provocaria, acabou por ser o financiamento (aliás lucrativo) de programas de resgate, debaixo de uma ideologia punitiva de “culpabilidade”, baseada em modelos clássicos de ajustamento. Nesse contexto, o BCE revelou ser capaz (através do “whatever it takes” de Draghi) de sustentar um ambiente antideflacionista, com baixas taxas de juro, que se sabe ter, contudo, algo de artificial e de inevitavelmente conjuntural. No cenário de fundo, as “bombas-relógio” da imensidão das dívidas continuam por desarmar e nada indica, antes pelo contrário, que se tenham alterado os pressupostos que impedem a respetiva mutualização, bem como o completamento da União Bancária, que contribuiria para um maior sossego dos mercados. As posições, neste domínio, continuam muito fechadas.

O ambiente de “bem estar” que atualmente se vive será mesmo, segundo alguns, uma perigosa ilusão. Um abalo financeiro similar ao de 2007, ou mesmo ligeiramente inferior, depararia ainda hoje com uma Europa claramente não equipada com instrumentos suficientes para lhe fazer face, de forma minimamente eficaz. Muito se avançou, a reboque das provações anteriores, mas o aparelho institucional para a promoção de políticas de resposta europeia sofre ainda de fortes limitações.

O salto institucional centralista de que agora muito se fala, com a criação de um “Ministro das Finanças” europeu, necessitaria, para ser exequível, de mais transferências de soberania (em grande parte simbólicas), que será difícil obter de algumas ordens nacionais, que continuam a jogar com as margens de flexibilidade orçamental como uma das derradeiras escapatórias (com a política fiscal) ao “colete de forças” que o modelo europeu hoje já lhes impõe. À racionalidade da eficácia opõe-se assim a aceitabilidade democrática, ou mesmo a simples legitimidade de algumas destas medidas. E se isto é válido para os governos também o é para os parlamentos, cuja intervenção decisória deixaria de se fazer nos moldes atuais, no caso de se caminhar para a institucionalização de um “fundo monetário europeu”, por transformação  do MEE. 

Aqui chegados, é naturalmente no plano dos compromissos políticos que tudo se joga. A chave, não haja ilusões, está no entendimento possível entre Berlim e Paris. Com a balança interna pós-eleitoral a pender cada vez menos para o modelo da atual “grande coligação” com o SPD, optando a CDU por parceiros mais exigentes, a futura margem de flexibilidade alemã vai depender, quase em exclusivo, daquilo que a França de Macron dela conseguir extrair. Para ter alguma margem negocial, a França precisa de ser “levada a sério” na sua disposição para fortes reformas, cuja aprovação parlamentar parece assegurada, mas cujos impactos “de rua” estão por medir. Acresce que Macron ainda não revelou a sua eventual abertura para que Paris continue a alimentar a “frente sulista”, a que Hollande dera algum “vento”, e que agora conta com uma Itália fragilizada por uma intervenção bancária de dimensões imprevistas. As coincidências entre os dois discursos não são muito evidentes, e isso, no que nos toca, pode não ser uma boa notícia para a estratégia de António Costa.

À mesa na terra do Eça


Hoje, na revista "Evasões", distribuída gratuitamente com o "Diário de Notícias" e o "Jornal de Notícias", escrevo uma crónica "gastrófila" sobre o restaurante Bodegão, da Póvoa de Varzim.

Quem quiser ler o texto (a "Evasões" traz muito mais coisas interessantes, pelo que recomendo vivamente a consulta da revista), pode fazê-lo aqui.

Simone Veil


Morreu uma mulher que, há 43 anos, como membro de um governo de direita, deu a cara pelo direito ao aborto, no seio da conservadora sociedade francesa.
Simone Veil era uma referência em França, uma grande figura moral, muito respeitada. Na infância, sofreu Auschwitz. Seria a primeira mulher a presidir ao Parlamento Europeu.
Tive o privilégio de a conhecer pessoalmente, de escutar a sua sabedoria e de apreciar o seu equilíbrio. A Fundação Champalimaud perde uma conselheira de mérito.

Do senso comum ao inimigo imaginário



Começo por um “disclaimer”: não percebo rigorosamente nada de prevenção florestal, nem de combate a incêndios, não sei se se deve favorecer ou rejeitar o eucalipto, não tenho a menor ideia sobre o que será mais correto fazer para o futuro – salvo o óbvio, que é achar que há interesse em encontrar uma maneira de ter as matas mais limpas e organizadas (mas também não sei como e por que meios), haja em vista os Verões cada vez mais quentes que aí virão. Neste tipo de questões, entrego-me confiadamente nas mãos de quem sabe, de quem estuda estes temas, de quem trabalha no terreno, de quem gere o país. E, perante os factos ocorridos, aguardo serenamente as conclusões que deles devem ser extraídas.

Não posso, assim, deixar de ficar espantado por ver surgir, em especial na nossa classe jornalística, imensos e inusitados “especialistas” no tema, rapaziada que escreve em tom grave, imagino que com o mesmo saber com que se pronunciará sobre a cultura de caracóis na ilha do Corvo. E então nas redes sociais - que estão para os opinadores de hoje como os “cafés centrais” estavam para as tertúlias do antanho - é um fartar de indignados “tudólogos”. Feliz país que tais e tão sapientes filhos tem!

Responder-me-ão: mas um cidadão, a começar pela comunicação social, não tem o direito de se interrogar sobre a razão de dezenas de mortes, sobre o que seguramente falhou, sobre o que de tão incontrolável possa ter ocorrido? Claro que sim! Deve perguntar, tentar perceber, obrigar à responsabilização de quem gere a coisa pública. Mas também deve fazê-lo sem partir do princípio de que o senso comum lhe dá alguma particular autoridade, sem presumir respostas que ainda ninguém tem e que apenas resultarão dos inquéritos, que infelizmente demorarão tempo. Deve agir com serenidade e seriedade, não deixando a impressão de que os poderes públicos são afinal o “adversário”, o “inimigo” que está ali para esconder coisas inconfessáveis, para proteger interesses suspeitos, enfim, para nos enganar a todos. 

Esta visão da democracia como um palco onde só há incompetentes, corruptos e mentirosos é uma perspetiva doentia da política, uma pandemia cívico-mediática que dá pasto às mais alucinadas teorias conspirativas. E quem, no seio da classe política, cavalgar oportunisticamente estas ondas (hoje fá-lo alguma direita, como no passado o fez alguma esquerda, porque aqui não há inocentes), não está a perceber que, face aos seus ganhos imediatos, há um preço político muito maior que irá pagar – que é a descredibilização geral da máquina pública, que só vai aproveitar aos demagogos.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

O amuleto

(O "Delito de Opinião" é um dos mais populares blogues portugueses. Pedro Correia, coordenador daquele blogue, fez-me um amável convite para nele colaborar com um texto, o que fiz com grande gosto. Visitem o excelente "Delito" - como é conhecido no mundo da blogosfera - e, até lá, leiam, também aqui, o meu texto)

Os fins de tarde, naquele bar, são por regra uma hora bem sossegada. Tirando encontros furtivos de casais episódicos ou alguma conversa de negócios ou da política, só alguns espontâneos em busca de uma última bebida, antes do jantar, ocasionalmente por ali surgem, quase sempre ficando-se pelo balcão, em conversa com o empregado.

Naquele dia dos anos 90, só por lá havia dois amigos, na "mesa dois", fazendo horas. Ouviu-se a campaínha, o Juvenal foi abrir a porta e um novo cliente dirigiu-se ao balcão. Os da mesa olharam-no e ele saudou-os.

"Aquela cara não me é estranha ", disse um para o outro. O nome surgiu logo, e era vagamente conhecido de ambos. "Pois é, é ele mesmo!" 

"O homem está ali sozinho. E se lhe disséssemos para vir sentar-se aqui?" Assim fizeram e o novo cliente, já com o copo na mão, trazido do balcão, sentou-se na "dois".

Por alguns minutos, a conversa animou-se, alargou-se a vários temas e pessoas. Foi então que o nome de uma certa personalidade feminina veio à baila. A imprensa de escândalos trouxera, por esses dias, relatos de um envolvimento amoroso dessa pessoa, num registo por alguma razão polémico.

"Nunca percebi o encanto dessa mulher! Para mim, é uma das mulheres mais feias do mundo, um verdadeiro amuleto contra a luxúria", brincou um dos ocupantes originais da mesa, com uma sonora gargalhada.

O amigo que o acompanhava não só concordou como juntou mesmo uma acha mais para a fogueira: "E, se vocês estiverem com atenção, verão que ela até cheira mal..." 

(Por esta altura, imagino que alguns leitores possam estar intimamente a reagir ao inaceitável tom machista da conversa. Aceito que podem ter razão, mas a realidade dos factos, que são verdadeiros, foi aquela e não outra, qualquer que seja os juízos que ela nos motive.)

O tom da conversa, como se observa, ia já muito longe, mas, aparentemente, não o suficiente para convocar a concordância do terceiro parceiro de mesa, que se mantinha silencioso, com um sorriso enigmático. "Você não acha?", perguntou um dos outros, testando a sua adesão ao juízo devastador que acabava de ser feito sobre a senhora.

Foi então que este, com serenidade e sem nunca perder o sorriso, reagiu : "Não estou de acordo! Pelo contrário, é uma mulher muito interessante. Tem mesmo um sorriso muito bonito. Essa foi também uma das razões que me levou a casar com ela..."

O peso do silêncio que deflagrou sobre a mesa, com o olhar encavacado dos dois ocupantes originais a cruzar-se, em busca de uma impossível tábua de salvação, pareceu calar a música "retro", que fazia de som ambiente. O recente parceiro de mesa, veio depois a saber-se, havia sido casado, já há uns bons anos, com a referida senhora e, por indeclinável dever, decidira "ir a jogo" para ajudar salvar a sua honra. 

A conversa, claro!, terminou ali, não havendo saída "honorable" para a gaffe, quando tudo fora já longe demais. "Ó Juvenal, traga uma nova rodada!", foi a reação possível. 

E esta ficou a ser uma das histórias mais famosas da "mesa dois" do Procópio. E é obra, porque ele há tantas...

"A escolha do silêncio"

A expressão em título ficou-me de um daqueles longos arrazoados que um cronista chamado Marcelo Rebelo de Sousa publicava na página dois de um semanário que, há quase quatro décadas, nos habituava a ter notícias frescas. O cronista mudou de ramo e o semanário traz agora opiniões a fingir de "caixas". 

"A escolha do silêncio" foi o título um dia escolhido pelo cronista para qualificar a ausência de palavras de Ramalho Eanes, que ao tempo se refugiava atrás de uns óculos escuros que lhe davam um ar (para mim) pouco sossegante, numa qualquer semana política desses anos 70 ou 80. Eanes optara por não dizer nada sobre uma determinada situação ocorrente e o país, reverente perante aquela intimidante farda política, fazia uma elaborada exegese da ausência da palavra. A hipótese dele não ter nada para dizer nem sequer era colocada.

Lembrei-me, há dias, da expressão, por uma razão completamente diferente, quando estava a almoçar no "Chana do Bernardino", na Aldeia da Serra, na serra da Ossa (um bela opção para refeiçoar, podem crer).

Sentaram-se cinco pessoas numa mesa ao nosso lado: um casal com um filho e uma filha, mais uma empregada. Olhei-os de soslaio, à entrada, e logo os esqueci. Minutos depois, estranhando o silêncio, olhei a mesa. Estavam, os cinco, cada um deles especado a olhar para o respetivo telemóvel. Agitaram-se, por segundos, quando tiveram de interromper as respetivas tarefas individuais para formular os pedidos. Mas logo regressaram, concentrados, ao mutismo absoluto. 

Passou um quarto de hora. Veio a comida. Pai e mãe trocaram umas palavras. Os rebentos, aí com 15 e 12 anos, mantiveram o olhar atento aos ecrans e, com sorte, iam conseguindo espetar uma garfadas nas vitualhas, que emborcavam como mera atividade secundária. A empregada, a quem ninguém deu a confiança de dirigir uma única palavra, pousou por minutos o aparelho, enquanto comeu e olhou a paisagem, através da janela. Alguns sons ecoaram na escolha das sobremesas. Depois, o marido pagou a conta e saíram, sempre num silêncio quase sepulcral, com os miúdos ainda a tropeçar nas cadeiras, sem largar a máquina, seguramente a caminho do banco do carro, onde prosseguiriam a operosa atividade comunicativa e informativa.

Aquela família ilustrava, como ninguém, a "escolha do silêncio", que cada vez mais por aí se pratica. Quantos dos leitores se reconhecem neste retrato? Sinceramente.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

A compra da liberdade

Eu sei que é da lei, mas custa-me ver que alguém que tenha dinheiro "compra" liberdade, por uma caução financeira de algumas dezenas de milhar de euros, enquanto um pobre pilha-galinhas vai parar com os costados à cadeia, sem remissão, por ter roubado fruta.

E há uma outra desigualdade social de que, por "omertà", ninguém fala: aos detidos de certo nível social são concedidas facilidades prisionais em termos de "alojamento", enquanto o comum dos mortais vai para a "vala comum" das celas coletivas. Se a prisão é (também) uma punição, deve ser a gravidade do crime a medida de todas as coisas.

Por que será que este é um assunto tabu? Incomoda abordá-lo? A injustiça também se pratica nas casas da Justiça?

Meu Brasil brasileiro

Desta vez, tudo indica que Michel Temer está naquilo a que no Brasil se chama "uma saia justa". E, no entanto, a sua atitude revela estar ainda a tentar "jogar de salto alto", como lá se diz. Agora, tudo pode acontecer, "até nada!", como também se diz no Brasil...

Fezadas

Há uns anos, um chefe clubista ia pela sucapa a S. Bento da Porta Aberta fazer rezas noturnas, apelando às vitórias do seu clube. (Não sendo "do ramo", devo confessar que sempre achei estranho que alguém rezasse para ter efeitos nestas coisas. Então "lá em cima" são sensíveis a lóbis e a pressõezinhas oratórias? E havendo várias, em sentido contrário, por quem optam? Alguém me há-de explicar isto).
Agora, soube-se que um figurão de outra agremiação parece fiar-se em bruxos guineenses, queixando-se por email quando o "trabalho" não resulta. Isto está bonito, está!
Já só falta ver o presidente do meu clube fazer mezinhas para tentar ganhar na única modalidade que, verdadeiramente, preocupa os sócios - por muito que possam andar entretidos e falsamente eufóricos em matraquilhos e outros genéricos paliativos. O meu clube, já se sabe, é o mais "católico" do burgo: só ganha quando Deus quiser. E Deus parece que não quer, mesmo tendo ele contratado Jesus... A verdade é que o outro também tinha o Espírito Santo e viu-se no que deu!

Literalmente

‪Numa das televisões, a senhora que, à noite, lê os títulos dos jornais passa à frente siglas e palavras que não sabe pronunciar. É patético!‬ Acontece há meses...

... por ter cão...

Os do negócio do SIRESP produziram um relatório desculpabilizante. As autoridades divulgaram-no. Caiu o Carmo, a Trindade e a Portugália!
Imaginem o que teria acontecido se, as mesmas autoridades, dizendo ou não terem recebido o relatório, tivessem decidido não o divulgar...
Há por aí um défice de equilíbrio e honestidade.

Clave de sol

A simpatia desculpa tudo?

Parece que sim, para alguns.

Isto é um país que, às vezes, cheira mal.

Necessidades


Daqui a dias, muitas centenas de candidatos vão iniciar essa longa maratona que é o concurso de acesso à carreira diplomática. É "apenas", e a uma larga distância, o mais exigente e difícil concurso de toda a Administração Pública portuguesa. Serão apenas trinta os que, no fim do exercício, virão a ser admitidos. A esses, espera-os uma carreira muito exigente, cheia de "patamares" (adido de embaixada, secretário de embaixada, conselheiro de embaixada, ministro plenipotenciário, embaixador), com um percurso por várias geografias, por esse mundo fora, em consulados ou embaixadas, passando alguns por organismos multilaterais. Uma vida que lhes vai mudar a vida e, podem crer, também o modo de olharem para o papel do país no mundo.

Iniciado há algumas semanas, organizámos na Universidade Autónoma de Lisboa um curso de preparação para candidatos a este exame, que contou com um número apreciável de alunos. Tive o gosto, uma vez mais, a convite da Autónoma, de coordenar o intenso programa de aulas, durante as quais passámos em revista todos os temas que podem vir a ser abordados nas provas. Da economia internacional à história diplomática e à política externa portuguesa, do direito internacional às questões europeias, passando pelas temáticas políticas da atualidade mundial, procurámos habilitar os alunos a ultrapassarem os obstáculos daquele concurso. Esse trabalho terminou hoje. Foi um belo exercício, na minha perspetiva. Só posso desejar toda a sorte do mundo a quem nele participou.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Retratos de vida


Tenho a vida registada, a preto-e-branco, desde há décadas, nos retratos do Manel. De cada vez que passo por Santa Luzia, em Viana do Castelo, e que por lá o apanho, é certo e sabido que ele me faz um retrato "à la minute".

Nos lados da máquina, as recordações são muitas: de Vasco Santana a Nicolau Breyner, de Solnado a Toni de Matos, entre muitas outras figuras públicas. Enquanto a fotografia seca, falamos dos amigos e dos conhecidos, trocamos impressões sobre o andamento do negócio, comentamos os novos turistas, as flutuações do clima e (agora) as obras na basílica. E despedimo-nos, até à próxima.
Foi o que aconteceu no sábado. Um bom Verão, cheio de clientes, é o que lhe desejo, caro Manel (Cerqueira Gonçalves)!

O sentido e o Estado


Não me apetece alinhar no coro adjetivado contra o líder da oposição, por virtude da sua "gaffe" de ontem. Acho sempre que é possível, e até desejável, tratar estas questões com alguma serenidade e medindo as palavras.

O que mais me impressionou no que Pedro Passos Coelho fez foi o ter cavalgado um facto falso, que não cuidou em confirmar, explorando-o sem o menor pudor.

Porque a questão é esta: se alguém efetivamente se tivesse suicidado, sob pressão psicológica da tragédia a que assistira, seria legítimo a segunda figura da hierarquia partidária do país fazer disso um caso de exploração política, num tempo em que está em curso a instalação de uma comissão de inquérito, organizada nos moldes exatos que ele próprio propôs e que foi aceite pelo governo? Será "de bonne guerre", como dizem os franceses, proceder desta forma?

É que, ao "denunciar" a falta de apoio psicológico à (inexistente) vítima (ou vítimas, como chegou a insinuar), Passos Coelho ultrapassou uma fronteira, revelou que, pelos vistos, para ele "vale tudo", desde que o objetivo seja tentar marcar uns pontos mediáticos - aparentemente porque agora lhe pareceu que alguma atrapalhação do governo podia abrir uma janela de oportunidade, como forma de recuperar do fosso onde as sondagens colocam hoje a sua liderança.

O povo português sabe que, em política, as coisas são o que são. Alguns dos meus amigos não gostarão de ler isto, mas, se o PS hoje fosse oposição, sei que algumas vozes que por lá existem seriam capazes de dizer coisas do jaez das que Passos Coelho disse (eu não tenho ilusões). Mas a mim, no dia de hoje, conforta-me bastante ter a absoluta certeza de que António Costa o não faria. E os portugueses sabem isso, como agora também aprenderam até onde Passos Coelho é capaz de ir.

Este foi um dia triste para a democracia portuguesa.

Miguel Beleza


Era um homem agradável, com um humor que às vezes podia parecer corrosivo, uma forma irónica de olhar o mundo, que o levava a frequentes tiradas que deixavam alguns interlocutores desconcertados. Como economista, diziam-me ser brilhante, provocador e inventivo. Foi ministro das Finanças e governador do Banco de Portugal, além de professor universitário. 

Conheci-o em Londres, nos anos 90, como ministro. Recordo uma conversa no Berkeley, com Vitor Gaspar e Manuel Quartin Bastos, em que ele nos explicava o que entendia ser a insuperável "bondade" do BCE que aí viria. Anos mais tarde, viríamos a integrar um júri de admissão de novos diplomatas para as Necessidades, criando, a partir de então, uma relação cordial que se renovava quando nos encontrávamos. 

Morre agora, aos 67 anos.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Interesses económicos portugueses no mundo


Miguel Frasquilho, que até há pouco foi presidente da AICEP, e será o próximo "chairman" da TAP, é meu convidado para falar dos desafios externos da economia portuguesa.

A conferência terá lugar amanhã, terça-feira, dia 27 de junho, na Universidade Autónoma de Lisboa, na Rua de Santa Marta, n. 46, pelas 18.00 horas.

Esta será a última conferência de um ciclo que organizei sobre "Os interesses de Portugal no mundo", fruto de uma colaboração entre a UAL e o jornal "Público", em que participaram figuras como António Vitorino, Luís Amado, António Monteiro ou José Luís Carneiro. Nele foram tratados temas como os grandes eixos da nossa ação externa, a questão europeia, a lusofonia, as temáticas de segurança ou os problemas da diáspora.

Nesta que será a derradeira conferência deste ciclo - prevê-se um novo ciclo, a partir de setembro, com a abordagem de temas como a língua e cultura, o multilateralismo, a defesa, etc - serão desenvolvidos  os temas do comércio e do investimento, isto é, as questões essenciais da diplomacia económica.

A entrada é livre.


(Por lapso, foi anunciado que esta conferência seria no dia 26 de junho, isto é, hoje, segunda-feira)

Mourinho


Na minha adolescência, havia um Mourinho. Foi guarda-redes do Lusitano de Évora, do Vitória de Setúbal e do Belenenses, chegou a ser internacional (também na seleção militar), enveredando depois, por muitos anos, pela carreira de treinador.
Tinha um filho, José Mourinho, que é hoje uma grande referência dos treinadores do futebol mundial. Foi o pai quem o incentivou a estudar táticas e a "aprender" futebol.
Mourinho morreu hoje. A imprensa, escrita por gente de outra época, chama-lhe agora Felix Mourinho ou Mourinho Felix (até nisto hesitam) nomes por que, enquanto jogador, nunca foi conhecido em "A Bola", o "Record", "O Mundo Desportivo" ou "O Norte Desportivo" ("O Jogo", tal como a referência ao dragão, que faz parte do emblema das Antas, estava ainda longe de existir). Não sei porquê.
Morreu Mourinho. Está de luto o seu filho José Mourinho. É assim que deve ser.

domingo, 25 de junho de 2017

Namoro em Braga, 1900


Como seria Braga no início do século XX? Onde viveria o meu avô materno, ido de Bornes de Aguiar, ao pé das Pedras Salgadas, que por lá fez o liceu, antes se se formar em Coimbra, em Direito, em 1911? Não me recordo de o ter ouvido alguma vez falar desses tempos de Braga. 

(A verdade é que as perguntas que gostaríamos de fazer aos familiares mais velhos só nos surgem, irritantemente, muito depois de eles terem desaparecido.)

Ontem, andei pela Braga engalanada pelo S. João, de ruas alegres de gente, cheia de turistas estrangeiros deliciados com a "agressividade" risonha dos martelos de plástico, com as roupas enfarinhadas pelo açúcar das farturas, atordoados com os bombos e com as bandas de música em despique. E deu-me para imaginar que festas, que bailes, que namoricos se fariam pela Braga antiga, do tempo do meu avô.

A questão que me coloquei não era totalmente inocente. Passo a explicar.

Há bem mais de duas décadas, um primo meu foi contactado por uma pessoa, de Braga, que, para sua imensa surpresa, lhe revelou ser nosso parente. O meu avô, nos seus últimos tempos de liceu e de faculdade, anos antes de casar, tivera um "caso" com uma senhora de Braga, de que haviam resultado duas filhas. As quais, para o resto das suas vidas, fariam a sua vida em Braga. Interessante foi saber, entretanto, que o meu avô, já após o seu casamento, em 1913, com a minha avó (e com a presumível anuência desta), tentou trazer as crianças para junto de si, embora sem sucesso.

Não comunguei, por completo, a surpresa desse meu primo. Talvez por ser mais velho, recebera, em confidência, já há muitos anos, um zunzum sobre e existência de descendentes do meu avô, que residiriam em Braga. Porque o assunto era tabu na família, nunca tive a menor pista para o aprofundar. Até àquele telefonema.

"To make a long story short", à época desse contacto só umas dessas duas filhas do meu avô era viva (faleceu, entretanto). A senhora ainda usava, ao peito, um medalhão com uma fotografia do meu avô quando jovem. Promoveu-se um alegre encontro familiar e, a partir daí, ganhámos novos primos - gente muito agradável, simpática, com quem por vezes nos encontramos.

Mas a pergunta fica, definitivamente, sem resposta: como terá sido o namoro do meu avô, lá por Braga, à volta de 1900?

Gambuzinos

Foi há dias, no final de uma palestra que fiz sobre temas internacionais. Tinha havido várias perguntas da assistência, mas uma jovem aproximou-se e disse querer colocar-me uma questão em privado: se eu acreditava que, como alguns argumentam, o 11 de setembro, nomeadamente o ataque às Twin Towers, foi afinal uma operação montada pelos Estados Unidos, como pretexto do ataque ao Iraque. 

Perguntei-lhe se, nessa sua perplexidade, se inseria o facto de não haver imagens dos aviões caídos na Pensilvânia e no Pentágono. Esperançada, completou-me: "e o facto de não haver ninguém no Pentágono aquando da explosão, atribuída ao suposto avião". 

Desiludi-a. Não, não acredito nisso, nem em teorias conspirativas, nem em Bilderberg, nem em gambuzinos. Mas acho imensa graça a quem acredita, aos cultores do "não é por acaso que...", a quantos acham que há sempre interesses ocultos por detrás de tudo, que nada ocorre por acaso, que há um mundo de tramóias sempre pronto a atuar. Aqui entre nós, essas pessoas (em que se incluem alguns dos comentadores que aí vão surgir, aposto!) devem ser felizes, por julgarem ter "descoberto a pólvora". Que lhes faça bom proveito!

sábado, 24 de junho de 2017

Ventura Terra


As corridas


A imagem é de 1958. À frente, Stirling Moss, atrás, Jean Behra. Acabariam assim no podium. A zona é a Timpeira, depois da sua histórica curva e na aproximação à ponte, no circuito internacional de Vila Real. 

Nesse tempo, as traseiras da minha casa ficavam quase sobre a meta, o que, por vários anos, transformou uma janela e o nosso terraço numa espécie de bancada alternativa, onde ia parar muita família e alguns amigos, tudo para "ver as corridas". Lembro-me (ainda guloso) da imagem da mesa de sala de jantar, atulhada de vitualhas e refrescos, para apoiar as tardes "desportivas". E de mim, impaciente, a rasar a mesa, em "treinos"...

As "corridas" mobilizaram sempre Vila Real, dos automóveis às motos. Há por ali uma forte cultura motorizada, que tem atravessado gerações, desde que, na primeira metade do século passado, uma personalidade, que deu pelo nome de Aureliano Barrigas, lançou esta iniciativa. Houve períodos diferentes no tocante à tipologia dos veículos, em alguns anos as corridas estiveram suspensas, mas tudo retomou de novo. Dois nomes da cidade, já desaparecidos e ambos meus amigos, ficaram ligados ao circuito vilarealense: Manuel Fernandes e Sidónio Cabanelas. Lembrei-me de ambos hoje.

O percurso do circuito agora é diferente, os automóveis também, mas o famoso WTCC, uma emocionante prova internacional, leva à capital transmontana, desde há três anos, muitos milhares de pessoas, neste fim de semana. Tenho pena de não poder lá estar, mas a ubiquidade é uma qualidade que ainda tenho de aperfeiçoar um pouco mais (mas lá chegarei!).

sexta-feira, 23 de junho de 2017

O S. João e o tio Óscar


Era uma figura baixa, rotunda, sempre muito esticado, elegante, de fato com colete e relógio de bolso, chapéu largo, ar grave. Oficial do Exército, presente nas campanhas de África da 1ª Guerra, casara com a mais bonita irmã da minha avó, que “raptara” das Pedras Salgadas para a Ramada Alta.

Já só o conheci na reserva. Viviam num andar com um cheiro confortável e indefinível, que ainda hoje reconheceria em qualquer lugar do mundo. Da varanda traseira envidraçada, onde se tomavam as refeições, via-se a estátua da Rotunda e o comboio para a Póvoa, que passava fumegante ao fundo. Para mim, ido da província profunda que então era Vila Real, aquelas luzes davam à cidade ares de incomparável metrópole cosmopolita, deslumbrando-me os sonhos de futuro.

Foi o tio Óscar quem me ensinou o Porto, melhor, quem me ensinou a gostar do Porto, nas temporadas que por lá passei com ele. Levava-me a passeios de elétrico até Matosinhos, subimos o elevador da ponte da Arrábida, calcorreei os jardins do Palácio.

Sendo ele portuense de gema, não me recordo de ter inclinações clubistas. Era um leitor compulsivo, organizado, mandava encadernar os livros na Mártires da Liberdade. Foi ele quem me deu a ler, pela primeira vez, Arnaldo Gama, uma escrita quase tão imprescindível como “Uma Família Inglesa” para se perceber o espírito da terra.

O tio Óscar colecionava “O Tripeiro”, começando o dia a ler “o Janeiro”. Depois do almoço, antecedido de um passeio “higiénico” a passo forte pela Constituição, descia Serpa Pinto, galgava Cedofeita até Carlos Alberto, rumo ao Rialto. Aí se juntava a um grupo de amigos, creio que “camaradas” também na reserva, até que chegava, “fresco” e sujando os dedos, o “Diário do Norte” e se iam fazendo horas para apanhar o 6, na Praça, com destino último Monte dos Burgos.

Aos domingos, o programa variava: iam almoçar à Messe, na Batalha e, se o tempo estivesse a jeito, passava com a Tia Maria a ver as montras de Santa Catarina e de Santo António. Parece que, com sol, às vezes, acabavam o dia num chá no Bela Cruz, junto ao Castelo do Queijo.

“Tens de vir cá pelo S. João! Não há festa no mundo como aquela!”, repetia-me, com orgulho, embora mais tarde eu não o estivesse a ver, pelas Fontaínhas, a levar com o alho-porro de rigor, nesse tempo em que ninguém tinha sonhado martelos de plástico. Era o seu amor ao Porto que o fazia alardear uma festa a cuja confusão, tal como hoje sucede a muitos portuenses, imagino que fugisse.

Foi essa imagem mítica do S. João do Porto que transportei comigo quando um dia fui viver para a cidade, já o tio Óscar tinha desaparecido. Tive pena de não lhe poder ter dito que ele tinha toda a razão: é uma das mais impressionantes festas do mundo.

Bom S. João para todos!    

quinta-feira, 22 de junho de 2017

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Interesse público

Posso entender que um órgão de informação se permita elaborar sobre o presumível interesse do público que o lê, ouve ou vê. Algum "feedback" que receba dos seus leitores, ouvintes ou espetadores confere-lhe o direito de mandar "bitaites" sobre aquilo que quem os acompanha pode querer. Não é certo que acerte, mas é legítima essa sua especulação.

O que não admito é que alguém, saído de uma redação, sem a menor representatividade, se arrogue o direito de vir definir, ou a marcar arbitrariamente como baias da sua produção jornalística, o que ele acha que é o "interesse público". Já a formiga tem catarro! 

Todos sabemos que esse é, as mais das vezes, um simples alibi para "mandar às urtigas" a ética (que é sempre interpretada como dá mais jeito), a deontologia (numa classe que perdeu todo o respeito por um código de conduta minimamente consensualizado) e, pura e simplesmente, um pretexto fácil para publicar e mandar para o ar o que sabe que a avidez sensacionalista e "voyeuriste" de algum público melhor consumirá. 

Da mesma forma que a "opinião pública" é uma coisa diferente da opinião publicada, também o "interesse público" não é, simplesmente, o que interessa ao público,

Algum jornalismo que por aí anda sabe que, no fim da linha, contará sempre com o tropismo "libertário" de um sistema judicial que, "empanicado" desde o 25 de abril por uma interpretação laxista e temerosa da "liberdade de imprensa", sentenciará a seu favor, raramente em proteção dos ofendidos ou dos valores da privacidade.

Sei não ser politicamente correto estar a escrever isto - logo eu, que escrevo regularmente em jornais e revistas, que às vezes vou pelas televisões. Mas é o que penso.

E representa o que escrevi uma crítica ao sistema de Justiça? Claro que sim! A democracia não tem vacas sagradas.

Sozinho em casa

Sozinho em casa, a ver o Portugal- Rússia, ao som de Prokofiev (há anos que não ouço comentaristas), dou-me conta, pela primeira vez, que o meu léxico de interjeições impublicáveis (felizmente a vizinhança não ouve) não variou rigorosamente nada desde os tempos de adolescência.

A pátria

Depois de quinze minutos de espera: "O senhor desculpe o atraso, mas os meus colegas aqui dos telefones estão todos a ver o futebol. Sabe como é...". Sei, sei! É a "pátria em chuteiras", como dizia o Nelson Rodrigues.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Especialistas


À legião de especialistas florestais e em prevenção que andam nestes dias pela nossa comunicação social atribuo a mesma credibilidade que, desde há uns anos, dou aos economistas que por lá pululam: uns terão razão, outros não. Eu não sei.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Os portugueses pelo mundo


A gravidade da situação que envolve os portugueses na Venezuela, as hipóteses de retorno da população qualificada que tem saído de Portugal nos últimos anos, a sustentabilidade da confiança que as remessas de emigrantes hoje traduzem - tudo isso são apenas alguns dos fatores que nos levam a refletir sobre a diáspora portuguesa no mundo. 

Para além das respostas conjunturais, no quadro de uma política de apoio aos portugueses expatriados, que tem vindo a ser construída por sucessivos governos, interessa pensar, a longo prazo, qual será a melhor estratégia externa para um país que tem parte importante da sua população no exterior.

É isso que vamos fazer amanhã, terça-feira, dia 20 de junho, às 18 horas, na Universidade Autónoma, na rua de Santa Marta, 56, em Lisboa. Será nosso convidado José Luis Carneiro, o atual Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas.

Esta conferência é a penúltima do ciclo "Os interesses de Portugal no mundo" onde já ouvimos, nomeadamente, António Vitorino, António Monteiro e Luis Amado.

Estão todos convidados.

Ainda os incêndios

Alguns dirão que é talvez cedo para falar nisto. Não concordo.

Desde há vários anos que, em todos os ciclos políticos, é feita uma imensidão de estudos, com debates de permeio, sobre a questão da prevenção dos incêndios. Não há Verão em que não ouçamos especialistas falar sobre o que se deve fazer, governos a legislar pelo Outono, um pesado silêncio no Inverno, e, depois, tudo a continuar na mesma (ou quase, a julgar pelos resultados) na Primavera e Verão seguintes.

Não esqueço, claro, a imprevisibilidade das condições climáticas bem como a dificuldade em tocar nas estruturas fundiárias, que limitam fortemente a capacidade de atuar com eficácia. 

Também não esqueço a bravura de quantos, todos os anos, arriscam (e às vezes perdem) a sua vida em horas seguidas de sacrifício, como é o caso dos bombeiros. 

É, contudo, tendo tudo isso presente que me permito fazer algumas perguntas: estaremos mesmo a fazer as coisas certas, a seguir o melhor caminho? Teremos, entre nós, nos nossos especialistas em prevenção e operacionais no combate aos fogos, toda a "massa crítica" suficiente para desenhar as melhores soluções para o futuro neste domínio? 

A questão que queria suscitar esta esta: não seria tempo, como ocorre noutras áreas, de recrutar especialistas estrangeiros credenciados para fazerem uma análise independente às nossas estratégias de prevenção e combate aos fogos, aconselhando-nos à luz de outras experiências com mais sucesso? Não seria de procurar aprender com quem faz melhor? A menos que alguém me garanta que ninguém faz melhor do que nós, o que eu não acredito.

Sei que pode parecer provocatório estar a suscitar isto, num tempo de trauma como o que vivemos, mas é precisamente "aproveitando-o" que o alerta se justifica. Não poderia ser esta ajuda externa uma via a explorar? O que perderíamos com isso? O orgulho dos nossos técnicos e especialistas? Com franqueza, acho muito barato para o preço que o país já está a pagar.

Esta não é uma questão política, de esquerda ou de direita, de governo ou de oposição, é apenas uma questão de bom-senso.

domingo, 18 de junho de 2017

Tudo é feito de mudança

Um país não é muito diferente de uma pessoa: num segundo, sai-se de dias em que tudo parecia correr bem para um tempo de fatalidade, perante a qual se revela a nossa impotência.

Palavras

Dizer que não há palavras para esta tragédia é uma banalidade. E é falso. Há palavras! De conforto e pesar para as famílias das vítimas, de louvor para o trabalho dos bombeiros, de compromisso de que se vai continuar a trabalhar para que, no futuro, seja possível evitar catástrofes desta dimensão. Mas há coisas que, infelizmente, temos de encarar com raivosa resignação: a natureza ultrapassa-nos. Podemos minimizar ou atrasar os seus efeitos, mas não a podemos controlar em absoluto. A natureza é quem tem sempre a última palavra.

sábado, 17 de junho de 2017

Manuel dos Santos


É muito triste a questão que agora envolve o deputado socialista europeu Manuel dos Santos, motivada por uma referência pessoal, com laivos fortemente discriminatórios, à candidata do PS à Câmara de Matosinhos.

Para quem não saiba, importa notar que este é mais um episódio na progressiva divergência que o deputado tem vindo a manifestar face à orientação da direção do seu partido.

Conheço Manuel dos Santos há muitos anos, tendo sido colegas de governo. Noutra rede social, já tinha discutido isto com ele. Não o convenci da minha posição de que as divergências se debatem no seio das estruturas dos partidos, não devem ser trazidas para a praça pública, num desforço conflitual que, nesse contexto, acaba inevitavelmente por ser aproveitado pelos adversários políticos (como já se está a ver).

Manuel dos Santos é de outra opinião e decidiu prosseguir a sua "guerra". E, agora, excedeu-se, não entendendo que certas graçolas que, há uns anos, talvez passassem impunes, hoje são sujeitas a um escrutínio condenatório muito forte.

Não é claro o que virá a seguir. Mas, seguramente, não será nada de simpático.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Helmut Kohl

Hesitei um pouco a escrever "ainda sou do tempo de Helmut Kohl". A expressão acarreta, consigo, uma ideia de coisa antiga. E, porventura, devo assumir que o é. 

Sou do tempo em que o recém-empossado primeiro ministro António Guterres, chegado a um dos seus primeiros Conselhos Europeus, levantou a mão e, perante um impasse criado entre Jacques Chirac e Kohl, propôs uma determinada solução de compromisso. Eu (e estava errado) assustei-me com a ousadia, Chirac sorriu, complacente, com o atrevimento do "Antoniô", Kohl ficou com um ar esfíngico e ambos, sob o olhar algo surpreendido dos restantes parceiros, acabaram por ter de reconhecer a sensatez do que tinha sido aventado pelo seu par português. O qual, a partir desse dia, não tendo a altura física dos seus colegas do eixo Paris-Bona (Berlim viria mais tarde), demonstrou ter uma estatura europeia que ninguém ainda por lá esqueceu.

Sou do tempo em que, numa pausa de outro Conselho Europeu (ou num momento transformado em tensa pausa, pelos factos ali produzidos), vi um irado Helmut Kohl encaminhar-se, a passos largos, pelo meio da sala, para um seu homólogo, cujo nome não cuido em lembrar, que assumira uma atitude que lhe tinha fortemente desagradado, naquilo que ficou à porta de ser um inédito confronto físico no seio do mais alto areópago europeu. (Anos mais tarde, numa madrugada tensa de Nice, vi um furibundo Jacques Chirac avançar para um ministro dos Negócios Estrangeiros de um país vizinho, em termos que imitavam, à perfeição, a anterior cena, com a diferença de que o interlocutor que Chirac invectivava em tom forte estava encafuado numa cadeira de braços, da qual não conseguia fugir ao gesticular ameaçador do homem da Corrèze.)

Helmut Kohl morreu hoje. Nunca falei com ele mas conheço muito bem o seu papel na História da Europa e do seu país. E também sei, porque o ouvi a alguns que com ele privaram ou acompanharam de perto a sua ação, que foi uma personalidade a quem nunca foram indiferentes os interesses de Portugal, que soube entender as nossas razões, que nos ajudou, com compreensão, em momentos delicados da nossa adesão e participação no processo europeu.

Só por isso, dá-me gosto dizer que ainda sou do tempo de Helmut Kohl.

Macron ou a esperança



O processo político que se vive em França merece ser acompanhado com atenção. É curioso ver um sistema que, por várias décadas, funcionou numa lógica tradicional de alternância esgotar-se, no espaço de alguns meses, redundando numa solução atípica, muito personalizada, uma espécie de bonapartismo feito mais de esperança do que de coisas concretas.

É fácil concluir que os partidos tradicionais esgotaram a sedução das suas mensagens ou não souberam recompô-las com receitas programáticas capazes de convencer um eleitorado cansado de décadas de promessas não cumpridas, tituladas pelas caras de sempre. É da sociologia política primária concluir que o surgimento de alguém com uma mensagem otimista, uma figura politicamente pouco marcada, com um discurso mais tecnocrático do que ideológico, pode ter abalado esse equilíbrio rotineiro. Mas, na ausência de uma crise histórica profunda ou de um abalo político muito sério, fica ainda muito por explicar no fenómeno Macron. Ele não foi, como De Gaulle em 1958, resultado de uma “vaga de fundo”. Se François Fillon não se tivesse envolvido em algumas inesperadas trapalhadas, não o estaríamos hoje a analisar aqui.

A França é o país das ideologias, mas a nova situação política em que vive é precisamente marcada por uma aparente onda de “desideologização”, pelo retorno ao mito idílico do “nem esquerda nem direita”, um tropismo que, como é sabido, surge de quando em vez nos ciclos políticos, empurrado pela ideia de que o que é preciso é fazer as coisas certas, venham elas marcadas pelo ferrete de serem de esquerda ou de direita. Sem uma única exceção, a História provou que todas essas experiências redundaram em soluções conservadoras, e esta não será, com certeza, uma exceção à regra.

O tempo, porém, lá por França, está do lado de alguma esperança. Uma esperança que deu a Emmanuel Macron a vitória sólida sobre a candidata presidencial da extrema-direita, mas que não parece ter sido suficiente para mobilizar o voto, de forma muito empenhada, nas eleições legislativas subsequentes. Esta espécie gaulesa de “PRD” (os leitores com memória dos anos 80 portugueses devem lembrar-se) traz consigo a excitação da virgindade política mas também a imprevisibilidade de quadros ainda não testados na fogueira do quotidiano.

Macron é uma figura que não descura a coreografia, que traz estudada ao milímetro. Surge com uma vitalidade pausada e de um rictus de firmeza - uma “espécie de Sarkozy decente”, como dizia alguém –, parecendo ter algumas ideias bem claras, nomeadamente no terreno europeu, onde a afirmação da França é mais do essencial para o projeto coletivo. Com o tempo se verá melhor se o “macronisme” veio para ficar ou se ficará na história francesa como um epifenómeno passageiro.

Lisbon (2)

Ontem escrevi aqui um post sobre o mau serviço prestado no setor comercial, em especial na área da restauração, por empresas que empregam trabalhadores estrangeiros que não sabem expressar-se em português.

O post dirigia-se, obviamente, à responsabilidade dos empregadores, a quem pagamos os serviços e nunca, como é evidente, aos próprio trabalhadores, que são o elo mais fraco do problema e que se limitam a aceitar o trabalho que lhes é proposto.

O texto foi algumas vezes treslido, por iliteracia, má fé e outras intenções cujo inventário se poderia fazer. Chegou-se a afirmar que ele era xenófobo e racista, não obstante nele se dizer o seguinte: "Faço parte de quantos gostam muito de ver Portugal um país de acolhimento para trabalhadores estrangeiros. Tenho orgulho quando os ouço dizer que gostam de viver por cá, que se sentem aqui bem. E espero sinceramente que fiquem, porque o nosso destino de porto de chegada sempre ajudou a abrirmo-nos ao mundo. O mesmo mundo que também continua acolher-nos, não o esqueçamos."

Ora isto é tudo muito simples e claro: quem trabalha na área dos serviços em Portugal, lidando com público, deve saber falar o português necessário para o exercício capaz dessas funções. É ao empregador, que é o nosso interlocutor na relação comercial desse serviço, que compete a responsabilidade de seleccionar as pessoas com essas habilitações mínimas. Quem as não tem pode e deve efetuar outro tipo de tarefas para as quais essas habilitações ou qualificações não sejam necessárias.

É assim tão difícil perceber isto?

quinta-feira, 15 de junho de 2017

O tempo e a diplomacia


"Vais conseguir tempo para ler esse livro?" A pergunta tinha algum sentido e até era bem benévola, à vista dos quase vinte volumes que eu acabara de comprar, ontem à noite, na Feira do Livro. E, de facto, não tive resposta para ela. "Sei lá!", era o que me apetecia responder, apanhado no embaraço habitual que sinto quando entro em casa ajoujado de livros. É claro que podia dizer, como o outro, que só há uma coisa melhor do que ler um livro, que é comprá-lo! Mas essa resposta já está "gasta" cá em casa...

A monumental biografia do Barão de Rio Branco, a grande figura tutelar da diplomacia brasileira, de Álvaro Lins, é um clássico que eu já devia ter adquirido há muito. Encontrar esta 2a edição (a edição original é de 1945), de 1965, em estado novo, por pouco mais de cinco euros, foi um "achado" a que não resisti. Claro!

Álvaro Lins é uma figura intelectual brasileira muito interessante. O seu "Missão em Portugal" (que era proibidíssimo entre nós e que me recordo ter consultado, pela primeira vez, na Biblioteca Pública de Nova Iorque, em dezembro de 1972) é um relato do extraordinário período em que foi embaixador em Portugal, tendo Humberto Delgado refugiado na sua embaixada, com toda a negociação posterior com as autoridades portuguesas. Mas a biografia de Rio Branco é tida como a sua obra maior, para além dos estudos sobre Luís de Camões.

Quando cheguei ao Brasil, em 2005, corria o boato de que o secretário-geral do ministério das Relações Exteriores, o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, obrigava os funcionários com pretensões na carreira a lerem esta biografia.

Não sei se isto é verdade, mas eu não me importaria que, entre nós, a hierarquia diplomática obrigasse alguns funcionários diplomáticos a certas leituras que os ajudassem a perceber que o que fazem, por aqueles claustros das Necessidades e pelo mundo, se insere numa história muito longa que deve servir de ensinamento de fundo a toda a sua ação de representação do país. E que tem sempre de haver tempo para bem aprender esses tempos.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Lisbon


Há uns tempos, deu-me para ir jantar a um clássico restaurante de bacalhau, na Baixa lisboeta (esse mesmo!). Quando quis saber um pormenor sobre um certo prato, o empregado, muito sorridente, hesitou, atrapalhado, por não perceber a minha pergunta. Quis saber de onde era: do Nepal. O seu inglês não era famoso e, visivelmente, só estava fadado para servir aquele tipo de turistas que apontam para uma fotografia com preço à frente, no menu plastificado. 

Porque o impasse continuava, porque eu (já em inglês) continuava a querer saber algo que ele não compreendia, chamou um colega para falar comigo: esse era do Sri Lanka. O inglês era melhor, mas, tendo-me já entendido, não tinha a informação que eu queria. Ainda pensei que pudesse vir por ali alguém do Butão...

E lá chegou um português (ficou satisfeito quando lhe disse que era parecido com o Ricardo Araújo Pereira, mas logo esclareceu que tinha um irmão lá em casa, esse sim!, quase sósia do ator). E tudo se resolveu, mais ou menos. (Para o que aqui não importa, comemos "bem malzinho", como a minha mãe piedosamente dizia, quando se saía de uma péssima refeição num restaurante).

Há dias, na noite de Santo António, já depois da meia-noite, abancámos numa esplanada da Rua Augusta. Os empregados eram maioritariamente do Sri Lanka. Simpáticos, sorridentes, disponíveis, não falavam peva de português. Entendemo-nos naquele "inglês de aeroporto" em que é difícil discutir se uma água é das Pedras, do Vidago (quem é de lá perto diz "do Vidago", quem não é diz "de Vidago"), de Campilho ou de Cavalhelhos. Pronto, a noite era de festa!

Lisboa está transformada numa cidade para turistas, para gente "de fora". Tudo bem, mas não exagerem! Não me apetece sentir estrangeiro na Baixa, como, por outras razões, me sentia em Albufeira, no século passado! 

Faço parte de quantos gostam muito de ver Portugal um país de acolhimento para trabalhadores estrangeiros. Tenho orgułho quando os ouço dizer que gostam de viver por cá, que se sentem aqui bem. E espero sinceramente que fiquem, porque o nosso destino de porto de chegada sempre ajudou a abrirmo-nos ao mundo. O mesmo mundo que também continua acolher-nos, não o esqueçamos.

No entanto, é importante que quem, no setor turístico, deve andar nos dias de hoje nas suas "sete quintas", com as enxurradas de "camones" (recupero aqui a expressão elegante dos taxistas), perceba que há um país de gente que vive por cá e que tem o direito a ser servida na sua língua (original ou aprendida).

O papel da rainha


A rainha de Inglaterra não tem como não aceitar um governo que o parlamento lhe proponha. Assim, a rainha vai ler, dentro de dias, um discurso elencando as medidas do futuro governo, sem que possa recusar uma só palavra que seja desse texto que o executivo lhe colocará nas mãos. A rainha de Inglaterra, com os anos que o sistema leva, converteu-se naquilo que vulgarmente se designa como "uma rainha de Inglaterra"...

As poucas monarquias que subsistem na Europa - quando foi instaurada a nossa República, só a França e a Suíça não tinham regimes monárquicos - decorrem da descendência de soberanos que, num determinado momento histórico, assumiram gestos que foram lidos como fatores de reforço da respetiva identidade nacional. A partir daí, as eventuais pulsões para a instauração da democracia republicana foram travadas por um acordo implícito: os soberanos e seus descendentes mantêm-se como símbolos da unidade nacional mas, em contrapartida, prescindem de terem a menor interferência na vida política, em alguns casos funcionando exclusivamente como meros "notários" do processo democrático que, à sua margem, gere o país. Enquanto eles e os seus sucessores não se constituírem como um problema, a sua sustentabilidade nos palácios dourados não será posta em causa.

No caso britânico, assim é e, desde que assim continue a ser, nenhuma pressão significativa parece existir para a reimplantação da República (já houve um regime republicano por lá, note-se).

Daqui a dias, a rainha de Inglaterra vai ler o programa do governo que Theresa May lhe colocará em frente. Parece que essa sessão, no entanto, foi atrasada, face ao calendário previsto. Porquê? Porque a rainha não lê esse texto num papel qualquer: o longo discurso é manuscrito, a tinta, numa espécie de pergaminho. Ora a tinta leva quase uma semana a secar no pergaminho e o próprio texto do discurso ainda não está finalizado. Só estabilizado este é que os calígrafos apurarão as penas e a seca do pergaminho se iniciará, por mais de cinco dias.

As liturgias têm um preço. A rainha e o pergaminho fazem parte dessas liturgias, com Brexit ou sem ele. Essa é a "graça" das monarquias, para quem gosta do género. Por mim, dispenso-o e vivo muito bem com este regime republicano semi-presidencialista que, na ciclotimia do humor dos eleitores (quase sempre exaustos da experiência anterior), nos leva a eleger ora figuras patibulares ora "charmeurs", com intectuais ou militares éticos à mistura.

Com todo o respeito que tenho por aquilo que tem sido a escolha implícita dos britânicos, viva a nossa República!

terça-feira, 13 de junho de 2017

Ao Rui "Manuel"

É um dos mais reconhecidos e prestigiados diplomatas portugueses, em cuja carreira ascendeu até ao topo. Inteligente e culto, tem um humor rápido e uma ironia subtil. É o Rui Quartin Santos, um embaixador que, nos dias de hoje, goza uma merecida jubilação.

Conheci-o em Nova Iorque, nos anos 70 do século passado, quando um dia por ali passei como "correio de gabinete", uma função de transporte de documentos de elevada confidencialidade, que, ao tempo, era executada casuisticamente pelos diplomatas mais jovens. Voltando uma tarde a esquina da 5a Avenida com a rua 58, tendo-me eu queixado do "wind chill factor" naquele gélido inverno, ele retorquiu-me, seriíssimo: "É verdade, mas nada que se compare com a esquina da Loja das Meias com a rua Augusta, lá por Lisboa, que está cotada, sem contestação, no topo dos registos meteorológicos mundiais de ventanias..." (Na altura, a Loja das Meias era ali). Por esses tempos, o Rui divertia-se também a relatar as míticas expressões de "inglês mais-ou-menos" atribuídas a um colega nosso, que falava aos nova-iorquinos da sua mulher-a-dias designando-a por "my wife-a-days"...

Mas é sobre um dos mais conhecidos "vícios" do Rui que eu quero aqui falar, porque o assunto veio hoje à baila num almoço de amigos, neste dia de Santo António.

Vou dar um exemplo concreto, para mais facilmente se entender o assunto. Imaginemos que o Rui analisava um debate recente na Assembleia da República. O seu comentário poderia ser uma coisa como esta: "Faz muita falta por ali o Francisco Anacleto. A vida seria muito mais difícil para o António Luís se o tivesse como opositor." Perante a nossa eventual estupefação, face à menção daqueles nomes, o Rui esclareceria que se estava "naturalmente" a referir ao Francisco (Anacleto) Louçã e ao António (Luís da) Costa. É que o Rui especializou-se, desde há décadas, em saber os segundos nomes de imensa gente, criando um glossário onomástico que ficou clássico nas conversas dos claustros do ministério. "Ó Francisco Manuel! Que achaste do discurso de ontem do Jaime José? O António Vitor disse-me que gostou imenso!". Foi sempre assim, durante anos, sendo que, neste caso, o "Jaime José" seria Gama e o "António Vítor" seria Monteiro.

Já não vejo o Rui há bastante tempo, mas, conhecendo-o, tenho a certeza de que não deixou de manter aquele seu curioso "vício", que aliás ecoa uma prática antiga que nos habituámos a detatar nos romances clássicos russos. Quando o encontrar de novo e ele me tratar, como sempre faz, por Francisco Manuel, não deixarei de lhe chamar "Rui Manuel" ou "Rui Bernardo" ou "Rui Valentim", porque o Rui, useiro e vezeiro em chamar à colação o segundo nome dos outros, não tem, ele mesmo, nenhum segundo nome próprio, o que abre um espaço quase infinito à nossa imaginação.

Um abraço para ti, caríssimo Rui, para o caso de alguém te mostrar este escrito que inspiraste.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

"Olhar o Mundo"

Chama-se António Mateus, é jornalista profissional há muitos anos e trabalha na RTP. A sua especialidade é a política internacional, terreno onde se mexe como peixe na água, fruto da sua inigualável experiência como correspondente na África Austral. Tem vários livros publicados e, desde 2014, dirige na RTP o programa semanal de informação internacional "Olhar o Mundo", onde coordena um grupo de colaboradores "pro bono", de que faço parte.

O António lançou agora um livro, com o título do seu programa, onde insere entrevistas que conduziu com diversas personalidades, a que juntou textos da autoria de alguns dos colaboradores do programa (entre os quais um texto meu, sobre o futuro da diplomacia), numa edição da Marcador.

O livro foi lançado na passada quinta-feira na FNAC do Colombo e teve uma sessão de apresentação ontem na Feira do Livro. Compromissos e andanças fora de Lisboa impediram-me de estar presente mas não impedem que o recomende a quem nos lê.

Parabéns, António! 

Os filhos de Ronaldo

Cristiano Ronaldo é um homem simples e que parece bem formado. Um dia, numa sua entrevista a Judite de Sousa, deparei, com surpresa, com uma personalidade que estava a conseguir lidar, com notável maturidade, com toda a pressão que a adulação e o dinheiro inevitavelmente acarretavam para o jovem que era. 

Quero com isto dizer que estou convicto de que Cristiano Ronaldo, independentemente de alguma arrogância que há que desculpar-lhe, atento o impacto público das "performances" notáveis que faz, como excelente profissional que demonstra ser, é - passe a expressão - um "gajo porreiro".

Daí que me pareça menos conforme com essa imagem a circunstância de, por um frio e comodista calculismo, ter optado por um sistema de "produção" de filhos que vai privar essas crianças de crescerem ao lado de uma mãe. O pai pode vir a dar-lhes tudo, da atenção a um imenso conforto material de vida, mas amputar friamente o seu ambiente familiar, condenando essas crianças à vida com uma (ou mais do que uma) madrasta, é uma opção que, na minha opinião, releva de um inaceitável egoísmo.

domingo, 11 de junho de 2017

Fausto


Tinha então o ar típico de um menino acabado de aterrar em Lisboa, vindo da Angola onde nascera para a música e concluíra o liceu. Projetava uma imensa simpatia, um sorriso sereno que, com naturalidade, construía amizades.

Naquele ambiente universitário atípico, de há quase 50 anos, que era o Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina - leram bem, "ultramarina" -, uma escola de formação de quadros para a administração colonial que Adriano Moreira procurava transformar numa incipiente escola de ciências sociais, recordo-me dele se ter integrado muito bem, fazendo mesmo a "ponte" entre os filhos, mais ou menos rebeldes, de uma Lisboa "social" que por ali andavam e a turbamulta associativa que então se divertia a subverter a ordem salazarenta que ainda se respirava em certos setores da casa. Pelos muitos poisos de conversas no Palácio Burnay, à Junqueira, bem como em noitadas da Rua da Paz, uma nova e improvável versão meio anarca da "Casa dos Estudantes do Império", onde imperavam a política, os copos e grandes tainas, construí com ele uma amizade para a vida.

A pessoa que motiva este texto chama-se Carlos Fausto Bordalo Gomes Dias. Todos o conhecem: é o Fausto, do "Por este rio acima".

Em 1968/69, ambos fizemos parte da mais radical lista associativa que aquela veneranda casa vira algum vez nascer. E ganhámos, numas eleições divertidas, bem coloridas, com gente muito diversa, mulheres lindas, sob uma bandeira programática que fora beber o essencial ao maio parisiense, escassos meses antes. Quem, por esse tempo, leu o (proibidíssimo!) n° 1 da revista "Ibis" sabe do que estou a falar.

A nossa vitória viria a ser, contudo, algo pírrica: semanas depois, o Ministério da Educação Nacional informou que toda a lista eleita fora "não homologada", porque, como era a regra da época, a democracia parava à porta da vontade arbitrária da ditadura. E o ditador, precisamente por esses dias, até mudara: chamava-se agora Marcelo Caetano (esse mesmo, cuja biblioteca esteve ontem no centro do 10 de junho carioca, celebrado pelas autoridades que "abril abriu"). A Associação viria mesmo a ser saqueada, à nossa frente, pelos esbirros do capitão Maltez e o sonho lindo foi adiado, com a raiva a subir.

O Fausto, já por essa altura, compunha coisas musicais bem interessantes, embora ele talvez se reconheça menos numa canção em que se falava de "meninos com olhos de cratera", com letra do João Bettencourt da Câmara, que então gravou num (hoje raríssimo!) 45 rotações. O mesmo Fausto que cantava nos "convívios" da Junqueira, em tardes em que o Tossán e o José Carlos de Vasconcelos declamavam o neo-realismo empolgado das poesias das "notícias do bloqueio". O Fausto que então namorou a Rita Vinhas, a mais bonita colega das nossas tardes do magnífico jardim e da "sala verde".

Dois anos mais tarde (1970/71), o Fausto e eu voltámos a ganhar as eleições para a Associação. E, dessa vez, para alguma surpresa nossa, o ministério não ofereceu quaisquer objeções à lista. Eu era presidente da Assembleia Geral e o Fausto tinha uma posição muito importante, creio que na direção. O ano académico fora muito turbulento. No meu caso, tinha mesmo sido objeto de um processo disciplinar, que me impedia de assistir às aulas (!) e de entrar nas instalações da escola, exceto para fazer os exames das "frequências".

Mas, no ano seguinte (1971/72), voltámos a apresentar uma nova candidatura. E voltámos a ganhar. Só que, dessa vez, o presidente da Assembleia Geral cessante (isto é, eu) recebeu uma carta do Secretário-Geral do ministério, num tom muito formal, informando "V. Exa. de que a lista vencedora nas eleições para os corpos gerentes da Associação Académica do ISCSPU foi homologada por despacho de S. Exa. o Ministro da Educação Nacional". Tudo igual ao ano anterior? Não. O texto não acabava aí e acrescentava "... , com exceção dos senhores Francisco Manuel Seixas da Costa e Carlos Fausto Bordalo Gomes Dias, que estão superiormente impedidos de tomar posse".

A "medalha" de termos sido "não homologados" pelos dois ministros da Educação da ditadura já na sua versão marcelista, Hermano Saraiva e Veiga Simão (este último que o destino me levaria a cruzar à mesa do mesmo governo, um quarto de século mais tarde), ninguém nos tira, ao Fausto e a mim.

O Fausto, além de se dedicar ao ensino, teve a carreira musical brilhante que o país conhece. Construíu alguns dos álbuns mais notáveis da música portuguesa contemporânea e, amizades à parte, faz hoje parte desse (julgo) indiscutível "top five" que integra com Sérgio Godinho, José Afonso, José Mário Branco e Jorge Palma.

Lembro-o hoje aqui porquê? Porque o Fausto tocou ontem na minha terra, em Vila Real, nas comemorações do 10 de junho. E eu, que um dia vim de Paris a Lisboa expressamente para ver e ouvir uma sua apresentação, estava ocasionalmente em Vila Real, a 400 metros do espetáculo... e não fui, porque não sabia!

Um destes dias, quando me apresentar ao serviço no "almoço das quartas", no Lumiar, com o Fausto, o João Paulo Guerra, o "naval" Paiva de Andrade e outras gentes, lá vou eu ter de fazer a minha "mea culpa", selada com o "maltesiano" líquido escocês que, além da amizade, de há muito nos une os gostos.