quarta-feira, 12 de julho de 2017

Diplomacia familiar


Vi o cavalheiro surgir uma noite lá em casa, com ar grave. Foi recebido pelo meu avô e pela minha mãe. Era uma figura relativamente importante, na hierarquia das personalidades de Vila Real, onde chefiava um departamento oficial. Eu devia ter 11 ou 12 anos e o facto da conversa ter lugar à porta fechada fez-me pensar ser grave o assunto.

No fundo, a história era simples. O filho desse cavalheiro, um rapaz de vinte e poucos anos, havia "raptado" uma jovem de 17 anos, por quem estava apaixonado, cuja família, residente perto das Pedras Salgadas, tinha um vago parentesco com a nossa. O registo não podia ser mais clássico: a família da rapariga, por qualquer razão, não aceitava o rapaz (já assim era em Verona, ensina a literatura) e este, com a pressa fogosa dos dois a ajudar, forçou a decisão drástica.

A jovem tinha sido levada da casa "de boas famílias" em Vila Real onde estava hospedada, durante a noite (nunca percebi por que razão estas coisas se fazem de noite, mas deve ser para magnificar o romantismo do ato). Estariam então em "parte incerta" (o futuro viria a revelar ser Lamego, a apenas escassas dezenas de quilómetros, em casa de parentes).

Nessa pequena cidade de província dos anos 60, o escândalo só não se tornou "viral" na má-língua dos cafés porque esse vocábulo se limitava então às suas tradicionais dimensões médicas. Mas, por uns dias, não se falava de outra coisa: "Então já sabes que o filho do doutor Fulano fugiu com uma aluna do Magistério Primário?"

Ele era um pouco mais velho, tinha historial de conquistas e, provavelmente por isso, o pai da pequena, um abastado proprietário rural, talvez temendo pelo destino da herança, fizera forte "contravapor" ao romance.

A visita nessa noite do pai do raptor destinava-se a pedir uma mediação por parte do meu avô. Conhecendo-o, divertido como ele era, deve ter-se deliciado com o enredo, pedindo à minha mãe para o "assessorar".Desconheço o teor da conversa havida, apenas constatei que, no dia seguinte, o meu avô e a minha mãe, não sei com que mandato nem garantias recebidas, lá partiram para uma conversa com o pai da raptada.

Ao progenitor, cujo nome não vem para o caso, sempre ouvi designar lá em casa por "o Rendufe". Tinha ficado naturalmente furibundo com o rapto da filha e, no seu consabido mau feitio, constava que tinha prometido mesmo dar "uns tiros de caçadeira definitivos nos dois", para lavar a honra da família. Nisso era acompanhado pelo irmão da rapariga que, rezavam também as crónicas, andava munido de uma moca, que alardeava ser para "desfazer à paulada" o raptor. (Para sempre, sempre passou a ser designado na nossa família como "o da moca"...)

As condições de base para a negociação não se apresentavam, assim, muito favoráveis a um compromisso. Por uns dias, a boa vontade do meu avô e da minha mãe, sob o olhar distante e algo divertido do meu pai, mobilizou um curto "shuttle" entre a cercanias das Pedras Salgadas e uma moradia perto de um miradouro a que, em Vila Real, se chama a Meia Laranja. A minha memória mais impressiva desse "operação" é uma hora de "seca" passada num carro, à porta desta última morada, aguardando uma das diligências, nessa atividade de "go-betweens". Tenho uma vaga ideia de ouvir falar de promessas patrimoniais feitas pela família do raptor para apoio ao casal, como parte do possível entendimento.

O compromisso fez-se e, ao que parece, a minha mãe terá tido nisso um papel vital, no processo de convicção dos pais da jovem. Lembro-me bem dos meus tios brincarem com ela, chamando-lhe a "diplomata" da família.

Aliás, o reconhecimento do sucesso do empreendimento foi tal que houve casamento, tendo a minha mãe e o meu avô servido de padrinhos. Não me recordo de ter ido à boda, mas lembro-me dos recém-casados passarem a ser visitas lá de casa.

Ele tinha um ar de galã nervoso, de boas maneiras, sempre de boquilha, se bem me lembro um pouco dado aos álcoois, frequentador habitual da barra da Toca da Raposa. Ela era uma bela, roliça e "bem desenhada" e "grown-up" adolescente, se a minha memória me não trai (e, nestas matérias, por qualquer razão, costuma ser fiel...). Um dia mudaram-se para o Porto e nunca mais ouvi falar deles.

Do episódio - que me veio à memória quando, há dias, passei frente à casa dos pais do raptor - guardei para sempre as diligências "diplomáticas" da minha mãe, quiçá reveladoras de que essa qualidade humana é, porventura, de natureza hereditária.

3 comentários:

Anónimo disse...

bem tenha havido para todos!

Luís Lavoura disse...

Muito curioso este post, sobre casamentos arranjados entre famílias e sobre possíveis crimes de honra, pelo que revela da moral do Portugal rural ainda há 50 anos. Há 50 anos, Portugal estaria pouco mais avançado do que o Paquistão de hoje...

Jolas disse...

Caro Sr. Embaixador,

mais do que para Verona, este caso remete para o eixo Lordelo/Vila Real de tão idêntico ser ao "Anátema" de Camilo Castelo Branco. Penso até ser na meia-laranja, que os familiares de um dos intervenientes visitam uma bruxa/médium na esperança que lhes deem novidades sobre seus filhos.

Muito bom!